Vamos falar sobre licença paternidade?



Vamos falar sobre licença paternidade?


Gestação. Parto. Primeira infância. Esses são alguns dos muitos temas que deixamos escondidos boa parte da vida. Temas sobre os quais não somos ensinados a falar, desconhecemos as preocupações, e vamos pensar neles só quando chega a nossa vez - e olhe lá.


E é aí que mora o problema. Se a fórmula fosse simples assim e garantisse que todo homem aprendesse e buscasse mais informações sobre isso na hora de ser pai, tenho certeza que muita coisa seria melhor. Mas sabemos que as coisas estão longe de ser assim, e o resultado desse silenciamento e criação de tabus tem impactos profundos na nossa sociedade.


Hoje a lei garante uma licença de 4 meses para a mãe e 5 dias para o pai (um programa mais recente do governo libera 20 dias ao pai, mas é algo exclusivo para empresas inscritas no programa, o que o torna extremamente limitado).


Você, que já teve filho ou viveu próximo a alguém que teve, sabe que 4 meses não é nada. Um recém nascido continua sendo um recém nascido, e tirar uma mãe desse processo nessa fase continua sendo extremamente cruel. A própria OMS orienta o aleitamento materno exclusivo até os 6 meses. E aí o que? As mães que amamentam, que tirem leite no banheiro da empresa? E que todas se virem pra achar com quem deixar seus filhos?

Do nosso lado, 5 dias então, nem se fala. Não consigo enumerar o que dá ou não tempo de fazer, aprender ou viver com sua família nesse tempo. O que deveria ser o momento mais mágico na vida de um ser humano, já vem cheio de preocupações de como vai ser quando acabar.


Meus amigos, já pararam pra pensar que temos feriados maiores que a licença de um pai que acaba de ter um filho? Então...

'Ah, mas o pai não amamenta'. É verdade, infelizmente não. Mas se em algum momento você achar que esse é um argumento factível, me manda uma mensagem privada que a gente precisa urgentemente conversar.


Ter uma lei que dá 5 dias de licença ao pai é chancelar todos os números absurdos que vemos sobre a falta dele. É gritar pra todo mundo que não acreditamos na importância da figura paterna. É admitir que sim, jogamos uma tripla jornada inteira de trabalho, casa e filhos nas costas da mãe e não nos importamos se isso vai tornar ainda mais desigual uma balança que já está radicalmente desequilibrada. É bater no peito que está tudo bem, e que termos mais de 5.5 milhões de crianças sem o nome do pai no RG nem é tão grave assim.

Há luz no fim do túnel, e casos diferentes e boas iniciativas são cada vez mais encontradas. Diageo, Sanofi, Volvo, Loft, são algumas das empresas que já oferecem licenças estendidas aos seus colaboradores pais. Outras já tentam colocar em pauta o conceito de licença parental, um período que pode ser compartilhado entre os pais/mães, e que respeita os diversos formatos de família. Um cenário de exceção, infelizmente ainda muito distante da nossa realidade, onde ainda lutamos na base da pirâmide para dar os primeiros passos em busca do mínimo. Enaltecemos os bons exemplos de fora do país, mas na hora de mexer no nosso bolo a conta é mais difícil. 'É caro bancar a licença remunerada de um pai', dizem. Se realmente pararam pra sentar e calcular o tamanho disso, é outra história. Quantos homens têm filhos na sua empresa em um ano? Será que a quantidade é tão grande assim pra impactar o seu negócio? Ou pera aí, vamos pensar melhor, falar um pouco mais sobre, lembrar que as empresas devem ter sua parcela de retribuição à sociedade, e talvez aí more uma ótima oportunidade de tentarmos devolver pelo menos um pouquinho do que devemos?


Se vocês acham que eu simplesmente defendo a implantação de uma licença paternidade/parental maior sem outros esforços em conjunto, não é bem assim. Há muito mais a ser feito, incluindo um profundo trabalho de conscientização aos homens e mulheres sobre tudo isso que estamos falando.


Faça uma busca sobre licença paternidade. Leia opiniões sobre. Se assuste ao ver que o consenso está longe de ser geral. Ou quando ver uma mãe falando que não acredita nisso porque dar 6 meses ao pai de seu filho é dar 6 meses de férias a alguém que não está nem aí com tudo isso que estamos falando. Triste, mas real.


Vá conversar com uma empresa que já oferece uma licença maior, e veja que num primeiro momento pouquíssimos homens a utilizam. Talvez seja o receio do julgamento da sociedade, ou talvez o de sentir o mesmo medo que toda mulher sente ao ficar meses fora de seu trabalho.


Como vai ser a volta? Será que minha cadeira ainda estará lá? (medo não a toa, já que METADE delas perdem seus empregos durante os primeiros dois anos de vida de seu filho). Duro, né? O fato é que o medo ainda prevalece, e enquanto não tivermos todos na mesma página seguiremos traumatizando pessoas no que deveria ser o momento mais incrível da vida delas.

Minha filha nasceu há duas semanas, e por sorte pude tirar alguns dias de férias pra ter pelo menos um pouco mais de tempo dedicado inteiramente a elas, nossa casa e nosso menininho no auge de sua energia pandêmica dos 3 anos.


Minhas duas licenças seguiram a lei dos 5 dias, e talvez eu nem tenha tempo ou outra oportunidade pra poder viver a experiência de ter uma licença estendida. Mas vou lutar o que puder pra ver outros homens fazendo isso.


E aí, qual a sua opinião? Você também acha que precisamos falar sobre isso, ou ainda não está convencido?